IMAGENS IMPERFEITAS

Quando viajo, gosto de tomar notas. Notas escritas ou ditadas para o gravador do telemóvel, ou ainda registos de imagem, que não são propriamente fotografias, mas simples “instantâneos”, no sentido literal do termo.

Em todos os casos, trata-se de trazer para casa pedaços de mundo, como quem traz conchas da praia, num impulso sôfrego de tomar posse da minha própria experiência.

São fragmentos de acaso, farrapos, peças soltas, frases incompletas, figuras desfocadas, descentradas, mal iluminadas, sem enquadramento. Relâmpagos do olhar, do meu olhar emocionado e imperfeito.

O trabalho da memória é escolher, condensar, selar, fechar a realidade num museu mental.

Eu prefiro manter tudo em aberto, por explicar. Deixar as interpretações a meio, a aventura inacabada.

Não fotografo para mais tarde recordar, mas para mais tarde reflectir e escrever sobre material vivo, lava que não arrefece, abrindo a possibilidade de uma viagem infinita.

Estas notas em forma fotográfica são portanto antimemórias. A sua natureza não é artística e a sua função é estritamente pessoal e pragmática: impedir que a viagem se transforme em recordação, mantendo-a como permanente motivo de sonho e de utopia.

PAULO MOURA